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18 de agosto de 2011

Complexidade e Agricultura: Organização e Análise Ergonômica do Trabalho na Agricultura Orgânica

produção
Sandra Francisca Bezerra Gemma

A agricultura orgânica tem sido apontada como uma forma de cultivo sustentável do ponto de vista ecológico, econômico e social. No entanto, não se encontram pesquisas que tenham por objetivo discutir a sustentabilidade do "homem trabalhador" dentro deste sistema; ou seja, não há um corpo de conhecimentos consolidado sobre este tipo de atividade, assim como não existem indicadores, que nos permitam avaliar os impactos que este trabalho pode ter obre a saúde e o bem estar das pessoas, embora a exclusão da manipulação de biocidas tóxicos já constitua um grande avanço. Nesta pesquisa investiga-se, através da Análise Ergonômica do Trabalho e da Teoria da Complexidade, as características do trabalho humano na agricultura orgânica, e em particular do trabalho dos gestores, focando nos aspectos da organização do trabalho e da tecnologia utilizada, buscando ampliar a compreensão das atividades desenvolvidas, suas dificuldades e estratégias de superação. O gestor da produção orgânica é geralmente administrador e executor do trabalho, assumindo todas as funções administrativas de planejamento, organização, direção e controle de todas as áreas: produção, manutenção, finanças, recursos humanos e comércio, bem como a responsabilidade pelas questões ligadas à certificação, ao reflorestamento e à conservação do solo e da água. Ele necessita ainda pensar a unidade de produção de forma integrada e sistêmica, entendendo-a e tratando-a como um ser vivo, observando e identificando os elementos que o auxiliem na tomada de decisões para enfrentar as múltiplas dificuldades, em um ambiente onde não se dispõe de tecnologia adequada, com poucos recursos financeiros, e sem assessoria técnica. As dificuldades relatadas pelos agricultores são de natureza bastante variada. Vê-se desde aquelas relacionadas com exigências predominantemente físicas, cognitivas e afetivas do trabalho, até aquelas relacionadas mais diretamente com a falta de recursos tecnológicos, organizacionais, materiais, financeiros e humanos. Pode-se concluir que a hipótese inicialmente formulada é verdadeira, ou seja, que o trabalho na agricultura orgânica é complexo, pois incorpora os preceitos ecológicos, econômicos e sociais de sustentabilidade, que podem ser contraditórios entre si. Estes preceitos trazem determinantes específicos de natureza bastante variada que geram contradições e incertezas para o trabalho do agricultor, principalmente para o do gestor da produção. Esta complexidade do trabalho se relaciona com a necessidade de integrar múltiplas dimensões, demandando do gestor o desenvolvimento e a integração de variados saberes a fim de criar uma organização do trabalho dinâmica, como aquela descrita por Edgar Morin, que precisa ser freqüentemente reconstituída devido ao grande número de interações e de relações complementares e antagonistas entre ordem e desordem . Muitas pesquisas ainda precisam ser feitas, especialmente sobre as questões técnico-agronômicas e de saúde e conforto, assim como aquelas relacionadas com a comercialização, certificação e acesso a crédito. Será preciso ainda desenvolver políticas públicas que favoreçam a assistência e suporte técnico adequados. Somente a integração destes vários esforços poderá contribuir para o desenvolvimento deste setor, não somente em termos de produtividade e qualidade, mas também de melhorias para o trabalho e a qualidade de vida dos agricultores. 


Introdução 

O interesse em estudar o trabalho na agricultura orgânica teve início no projeto de mestrado da autora, que com especialização em ergonomia, aceitou o desafio de estudar o trabalho agrícola, apesar de toda sua formação e experiência profissional terem sido construídas no meio industrial e de serviços. Até então, o trabalho agrícola, e mais especificamente o desenvolvido no manejo orgânico, lhe eram totalmente desconhecidos. Isto, que em princípio, trouxera grandes dificuldades para entender o contexto rural, seus valores, a cultura que permeia seus atores, as formas de expressão e o jargão profissional, depois se manifestou como uma abertura, uma possibilidade para perceber estes trabalhadores, sem preconceitos, pois tudo estava por ser aprendido e apreendido. 

Havia uma curiosidade muito grande em saber como era o trabalho das pessoas, que se propunham a trazer para a mesa dos consumidores alimentos mais saudáveis, além de preservar o meio ambiente. 

A aproximação do trabalho realizado pelos agricultores orgânicos, conseguida através do estudo de caso concluído em 2004, trouxe a possibilidade de satisfazer em parte esta curiosidade, ao explorar através da ergonomia, de forma bem geral, algumas questões relacionadas com o processo de certificação da produção; com a deficiência tecnológica; e mais especificamente, aquelas relacionadas com as tarefas manuais presentes na fruticultura, notadamente no ensacamento de frutas. A partir deste trabalho, muitas outras questões se apresentaram sobre o trabalho na agricultura orgânica, e para tentar respondê-las nasceu esta pesquisa de doutorado. 
Esta tese, nem de longe, se propõe a esgotar o assunto, primeiro, devido à carência de estudos nesta temática; segundo, porque abarcar a realidade de trabalho, qualquer que seja, é tarefa bastante difícil, para não dizer por demais pretensiosa, mesmo para os mais proeminentes cientistas do trabalho. Talvez, mais do que trazer respostas, esta pesquisa tenha como propósito trazer elementos, que permitam enriquecer o debate, acerca do trabalho no cenário da produção orgânica. 

Este primeiro capítulo versa sobre a importância de se estudar o trabalho dos agricultores orgânicos na perspectiva da ergonomia e da teoria da complexidade, sobre a devida justificativa do tema abordado, bem como sobre o campo da pesquisa, a agricultura, e seu objeto, a agricultura do tipo orgânica. A hipótese de trabalho, assim como os objetivos gerais e específicos, também faz parte desta etapa introdutória. No capítulo 2 elaborou-se um quadro teórico de referência sobre a agricultura orgânica, a sustentabilidade no contexto da agroecologia, a ergonomia e a teoria da complexidade. No capítulo 3 foram descritos os procedimentos metodológicos adotados, e no capítulo 4 encontram-se os resultados e a discussão, que, assim como os capítulos anteriores, serviram de base para a elaboração da conclusão, que é apresentada no capítulo 5. 


Importância do Tema e Justificativa 

A temática central deste estudo é a agricultura orgânica, mais especificamente o trabalho realizado pelos agricultores neste tipo de manejo, com ênfase nas dificuldades encontradas e nas respectivas estratégias desenvolvidas para sua superação. 

Neste projeto de pesquisa foram investigadas as características do trabalho na agricultura orgânica do ponto de vista da ergonomia, explorando seus diversos sistemas e formas de organização do trabalho1, a fim de compreender os determinantes, que esta forma alternativa de manejo, traz para o trabalho dos agricultores, em especial para o trabalho dos gestores da produção, visto que se trata de uma agricultura diferente, que comporta entre outros aspectos a questão da sustentabilidade econômica, ecológica e social. 

A Análise Ergonômica do Trabalho (AET) foi o método de investigação utilizado nesta pesquisa, pois ela permite evidenciar as múltiplas lógicas existentes nas atividades laborais, possibilitando uma visão da complexidade do trabalho, e neste caso, muito útil para conhecer os elementos de complexidade presentes nas atividades exercidas na agricultura orgânica. 

Conforme destacou MONTEDO (2001), a AET permite identificar os vários determinantes da atividade de trabalho em níveis diversos, assim como suas conseqüências também em diferentes níveis. Pois esta ferramenta possibilita analisar de que forma a atividade de trabalho integra os determinantes, explicitando as lógicas presentes em sua manifestação. A autora enfatiza que a diversidade de determinantes do trabalho induz ao "olhar complexo" da situação de trabalho, e destaca que o ergonomista usa "intuitivamente" a teoria da complexidade. 

Com a tese de MONTEDO (2001) ficou provado que a AET pode se apoiar na Teoria da Complexidade, e que ela pode ser um instrumento para explicitar a complexidade do sistema formado pela situação de trabalho agrícola familiar. Por isso, ao se estudar o trabalho na agricultura orgânica, geralmente exercida no contexto da produção familiar, ao mesmo tempo tão repleta de diversidade, entendeu-se que a Teoria da Complexidade, proposta por MORIN (2003), também poderia ser útil para uma melhor compreensão do trabalho dos agricultores orgânicos, além do método da análise ergonômica do trabalho. 

Uma justificativa importante para se fazer pesquisa sobre o trabalho na agricultura decorre do expressivo número de pessoas que desenvolvem atividades neste segmento econômico. Além de não existirem muitas pesquisas na temática proposta neste estudo, a ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (1998)2 segundo ALVES FILHO (1999), estima que 50% da população mundial economicamente ativa dedica-se a trabalhos agrícolas. 
Dos mais de 182 milhões de habitantes do Brasil, segundo dados do IBGE (2005), 84,5 milhões são economicamente ativos, sendo 17,8 milhões o número de pessoas ocupadas na agricultura, ou seja, 21% do total. Este setor só perde para o de serviços, que comporta 33,7 % da população ocupada3. 

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