


A vida, seja ela em qualquer reino, depende diretamente do equilíbrio do ambiente onde está inserida. Portanto, quando falamos de produção leiteira, estamos falando de bovinos, seres vivos de um reino mais evoluído que o mineral e vegetal, que têm tato, paladar, olfato, audição, visão e sentimento; por isso sentem dor, têm preferência pelo que vão comer, incomodam-se com cheiros, com o timbre e a altura do som - principalmente o agudo os perturba - e o que enxergam pode traumatizá-los, pois têm sentimento e interagem com tudo e todos que estão a sua volta.
A escolha do sistema de produção é o ponto de partida, podendo-se optar por um sistema sustentável ou sustentado. Se a opção for o sistema de produção a pasto (arborizado, com comida farta e equilibrada), o custo energético é menor e os ganhos sanitários são maiores do que no semi-estabulado e estabulado, em que se utilizam mais pessoas no preparo dos alimentos - desde o plantio para confecção de silos, feno e capineiras, servindo alimentos todos os dias ("garçon de vaca"), até a limpeza do estábulo ("camareira de vaca"). Além disso, gasta-se também com maquinário e combustível. Este sistema é, na grande totalidade dos casos, insustentável, portanto sustentado (muitos estão pagando para produzir).
Também nesses sistemas a vaca se locomove menos, passando horas em piso de concreto onde excreta fezes, urina e descargas vaginais. O odor exalado pela uréia é desagradável ao seu olfato, causando-lhe desconforto para comer nesse local. Muitas vezes a comida não lhe é palatável ou está deteriorada, sendo pisoteada pela companheira "de cela", e o seu teto muitas vezes é machucado, chegando a ser mutilado. Tudo isso leva ao estresse, contribuindo para baixar a imunidade, e o animal fica totalmente vulnerável, predisposto a adoecer. Esses ambientes propiciam o desenvolvimento de microorganismos indesejáveis.
Outros fatores que contribuem para o surgimento de doenças ocorrem na sala de ordenha, a começar por sua construção, na maioria das vezes pouco arejada. A manutenção das peças que acompanham a ordenhadeira, bem como a regulagem da pressão, muitas vezes não são observadas com periodicidade, e os utensílios utilizados podem não ficar satisfatoriamente limpos, propiciando o crescimento e a manutenção de agentes patológicos, contribuindo para o surgimento de doenças.
A mamite sub-clínica é a mais comum, algumas se manifestam clinicamente mas principalmente a mamite crônica, elevando a Contagem de Células Somáticas(CCS) do rebanho.
Rebanhos aparentemente sadios que apresentam a CCS elevada ou com repetidos casos de mamite geralmente estão expostos a ambientes desequilibrados. A vaca exposta a uma carga viral elevada pode adoecer mesmo com as melhores condições imunológicas, pois quando a quantidade de microorganismos à qual o animal está exposto é muito grande, a capacidade de o organismo reagir contra o ataque do agente etiológico é superada. Imagine, então, no caso desse animal apresentar baixa imunidade.
Quando o problema começa a se repetir no plantel, principalmente com a mesma vaca, após ter sido medicada, ela se torna na maioria das vezes o reservatório do agente etiológico (bactéria, fungo e outros). Portanto, não se pode pensar em produção apoiando-se nas terapêuticas (alopatia, homeopatia, fitoterapia e outras); o importante é remover a causa, começando por repensar o sistema. Isso foi constatado por Setelich e Almeida (2000) em um experimento realizado em Santa Catarina, no qual vacas leiteiras criadas a pasto apresentaram a média de Contagem de Células Somáticas (CCS) de 418.000 células /mL, enquanto as testemunhas criadas no sistema confinado apresentaram a média de 1.134.000
células/ mL.
Outro fator importante é a qualidade do leite produzido pelas vacas que comeram pasto; segundo Dhiman et al (1999), o leite dessas vacas apresentou de 300% - 500% a mais de CLA (ácido linoleico conjugado), quando comparado ao leite das vacas que receberam outro tipo de alimentação. Esse ácido é importante no aumento da imunidade e na prevenção de câncer, segundo Dhiman (1999) e Aro (2000).
Falando do uso de outras terapêuticas como substituição, podemos citar um caso muito comum em algumas propriedades leiteiras, principalmente quando são criadas novilhas de linhagem para alta produção: o edema fisiológico. Pelo olhar da Homeopatia - partindo-se do princípio da lei do semelhante e do relato da patogenesia (sintomas manifestados pelo medicamento quando ministrado ao homem são) - o quadro do edema fisiológico é formado por calor (úbere quente), tumor (inchado), rubor (vermelho) e dor (sensível ao toque). Quando estudamos a matéria médica (livro onde são relatadas as patogenesias dos medicamentos), encontramos principalmente dois medicamentos que apresentam estes sintomas: Apis melifica e Belladonna.
Lembremos de como fica uma picada de abelha: incha, fica vermelha, quente e dói, exatamente o que foi causado quando experimentado o Apis melifica. Então, se causa isso num indivíduo são, irá curá-lo quando ele apresenta um quadro clínico com esses sintomas (essa é lei do semelhante).
A Belladonna, quando experimentada, apresentou quadro semelhante quanto a inchar, ficar vermelho, quente e doer. Deve-se, então, observar melhor as particularidades dos medicamentos como: hora que surgiu ou piorou, lateralidade, comportamento do animal quanto à agressividade, impaciência, sede e outros, para se optar pelo medicamento certo.
Entretanto, o edema fisiológico pode ser evitado totalmente ou amenizado pelo manejo da alimentação. Diminuindo-se a quantidade de proteína, ou seja, do concentrado oferecido ao animal nas últimas semanas de prenhez, será possível evitar a maior parte dos casos.
Isso demonstra que o manejo é fator importantíssimo e que de nada adianta optarse pelo sistema de produção a pasto e não manejar corretamente, observando o ponto ótimo da pastagem e o tempo que suporta aquela carga animal. A falta de alimento é motivo que leva ao estresse, portanto é um importante predisponente à doença nos animais. Outro ponto importante da produção é a raça a ser escolhida, que deve ser adequada ao clima, e a linhagem deve ser adequada ao sistema adotado.
Todos os fatores são importantes, mas o principal sujeito de todo o processo saúde e/ou doença é o homem e suas inter-relações (entre si e com os animais).
Quando, em uma unidade agrícola, as pessoas têm problemas ou trazem problemas de fora da porteira para dentro, acabam descontando na maioria das vezes nos animais, que ficam a mercê do humor, disponibilidade e vontade delas.
Exemplificando: vem da sabedoria popular e é comprovado cientificamente o fato de que uma mulher, durante o período de amamentação, deve estar tranqüila para haver a ejeção do leite e para que ele não venha a secar. A vaca, que foi melhorada geneticamente para produzir muito além do que necessitava para amamentar sua cria, sofre uma pressão no úbere quando começa a chegar a hora da ordenha, muitas vezes acompanhada de dor. Nessa situação, agüentar maus tratos como gritos, cutucões por ferrões, pancadas, relhadas, dentre outros, faz com que ocorra uma baixa na sua imunidade, sendo este um bom exemplo de que a falta de bem-estar predispõe à doença. Parece absurdo para alguns, mas já vi até espancarem vacas com banquinhos de madeira, antes, durante e depois da ordenha.
Segundo Munksgaard et al (1997) e Rushen, Passillé, Munksgaard (1999), maus tratos aos animais aumentam o leite residual quando a vaca está na presença do agressor. Toda maneira agressiva manifestada por quem maneja as vacas, seja por palavras, uso de ferrão, gritos, tapas, dentre outros, são fatores estressantes para o animal, e mesmo após meses de ter sofrido a agressão o animal não se esquece do agressor (PINHEIRO MACHADO Fº et al. 2001). Nessas circunstâncias, a adrenalina entra na corrente sanguínea e, por ser substância com ação vasoconstritora, compromete a ação da ocitocina nos alvéolos, pois há diminuição do fluxo sanguíneo.
Um fato que ocorre com freqüência em muitos locais é a mudança de funcionários que trabalham com os animais, principalmente os da sala de ordenha. Conforme descrito por Passillé et al (1996), os animais comportam-se de maneiras distintas em função de estarem na presença de pessoas que lhe são familiares ou não. O autor complementa dizendo que o estresse causado pode levar a vários problemas, sendo o mais comum a queda na produção.
Portanto, quando falamos de um caso de mamite, temos que ter a visão sistêmica de saúde animal pois não é o teto que está doente, é a vaca que está doente por algum desequilíbrio no ambiente em que está inserida. Geralmente são as interrelações, naquele ambiente, que estão doentes.
Também é importante investigar a presença de outras doenças muitas vezes crônicas, instaladas no rebanho, que levam a repetições de quadros de mamite e muitas vezes não são observadas. Exemplificamos com a mamite por ser de grande importância na bovinocultura leiteira; muitos plantéis, inclusive os considerados de "elite", têm animais com problemas de Brucelose e principalmente Tuberculose, causando uma queda na imunidade e levando a vaca à reincidiva de mamite, além da queda na produção. Engana-se quem se deixa levar pela boa aparência dos animais para avaliar seu estado de saúde.
O leite de vaca tuberculosa leva à contaminação das pessoas e animais que
ingerem e a seus produtos e derivados, de forma in natura, ou pelos processos de pasteurização lenta feita em banho maria no panelão, que atinge 68°C, e de fervura simples, em que o leite sobe uma vez. Ambas não são suficientes para a eliminação do Mycobacterium bovis, criando-se uma roda viva na retrocontaminação animal-homem-animal. Em todo o mundo essa doença nunca conseguiu ter um controle eficaz, quanto menos ser erradicada, mas alguns países estão trabalhando de maneira eficiente nessa busca, inclusive o Brasil.
Temos que pensar é numa medicina veterinária preventiva, e isso não se faz somente através de vacinas ou medicamentos fornecidos antes ou durante a manifestação da doença: temos que trabalhar provendo saúde.
Na maioria das vezes conseguimos evitar muitas doenças proporcionando melhores condições de vida ao animal através de espaço, buscando um ambiente mais equilibrado, uma alimentação mais próxima da adequada àquela espécie e pessoas com aptidão para manejar, que estejam bem na sua vida e no ambiente de trabalho para que não usem o animal como válvula de escape para suas frustrações.
A eficácia do uso da Terapêutica Homeopática na produção leiteira já foi comprovada e hoje é utilizada por muitos, no Brasil e em outros países, e sem prejuízo da produção, como confirmam os dados do trabalho apresentado por Mitidiero et al (2003). Segundo esse trabalho, num plantel de alta produção não houve diferença na produção (fig.1) e o custo foi bem menor (tabela 1). Porém o que observamos foi que as pessoas que trabalhavam diretamente com o plantel viviam em conflito no trabalho, principalmente o chefe, que trazia para o local de trabalho todos seus problemas e insatisfações e descontava nos colegas e animais.
Figura 1. Médias de produção de leite e freqüência de California Mastitis Test (CMT) positivo por tratamento no período experimental.
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Não foi observada diferença significativa entre tratamentos quanto à freqüência de vacas com CMT positivo (P=0,15). A Fig. 1 evidencia dois pontos divergentes da tendência geral. Nas leituras 6 e 11, houve uma tendência de aumento da freqüência de vacas com CMT positivo no tratamento homeopático.
Uma possível explicação para o aumento na freqüência de vacas com CMT positivo foram as várias mudanças de funcionários ocorridas desde maio, quando aconteceram problemas sérios decorrentes da indisposição do chefe do tambo (unidade leiteira) com funcionários e pesquisadores que lidavam com as vacas. O clima tornou-se tenso entre todos, desde a administração até os tratadores de animais, com um grau de irritação por parte do chefe do tambo.
Nesse experimento as infestações de endo e ectoparasitas mantiveram-se dentro de um nível controlado, diminuindo o estresse dos animais por não estarem mais sendo espoliados por uma alta carga de parasitas. Isso possibilitou uma diminuição da mão de obra com pulverizações, de gasto com equipamento e instalações.
Para medicar bovinos com homeopatia pode-se misturar o medicamento ao açúcar, que servirá como veículo, e colocá-lo no alimento (suplemento mineral, farelos e outros), e na água, sendo muito prático colocá-lo num nebulizador e pulverizá-lo nas narinas do animal, aproveitando seu hábito natural de lambê-las (conforme foto nº1).
O uso da Fitoterapia também é consagrado na veterinária, embora nos falte muitas pesquisas na etapa clínica para determinar toxidade e posologia, o que possibilitará aos profissionais utilizá-la com segurança. Fizemos uso do Fitoterápico à base de Stryphnodendron barbatimao (Barbatimão) em creme lanete a 10% (foto 2), conforme Mitidiero e Navarro (2003), pomada caseira para as rachaduras, machucados e verrugas dos tetos, e também na forma de tintura mãe para o pedilúvio (Mitidiero e Navarro, 2004). Essa espécie vegetal Stryphnodendron barbatimao, muito conhecida pela população rural em ecossistemas de cerrado, foi utilizada para pedilúvio: tintura de barbatimão a 20% (veículo etanólico) diluída a 5% em veículo aquoso.
Os animais apresentaram melhora da claudicação após dois dias de tratamento, regenerando o tecido interdigital ao final do sétimo dia de utilização do fármaco.
Comprovou-se, assim, a eficácia do barbatimão no tratamento das pododermatites (fotos 2 e 3). Outra planta medicinal que vem sendo muito usada como fitoterápico na bovinocultura leiteira é a Baccharis trimera (carqueja), em forma de decocto, que a partir do conhecimento popular foi estudada por Avancini e Wiest (1996), tendo sido comprovada sua eficácia como antimicrobiana especialmente para agentes Staphylococcus aureus e Streptococcus uberis, como desinfetante ou anti-séptico para limpeza da sala de ordenha, maquinário e utensílios, e também para desinfecção dos tetos pós ordenha.
A busca de outras terapêuticas fora das escolas de Medicina Veterinária é grande, em virtude do fato de que a maioria dos cursos não oferece em sua grade curricular ensinamentos fora da farmacologia alopática. Isso evidencia que as escolas não estão formando profissionais preparados para a realidade que estamos vivendo, com o aumento da demanda por alimentos limpos, livres de resíduos tóxicos. Outras terapêuticas deveriam constar na grade curricular como obrigatórias, pois acreditamos que os cursos não devem e nem podem ser tendenciosos, cabendo ao profissional fazer a opção a partir dos conhecimentos adquiridos.
As escolas têm que direcionar seus ensinamentos para a promoção de saúde e ter a terapêutica como um apoio, não como a solução, diferentemente do que constatamos hoje, quando os conhecimentos estão direcionados à doença: como diagnosticá-la e tratá-la, optando-se muito seguidamente até por intervenções cirúrgicas.
Na Medicina Veterinária, saúde poderia ser conceituada da seguinte maneira: "é o estado de equilíbrio do animal com o ambiente, inclusive o cosmos.
Esse estado manifesta-se através do comportamento natural da espécie de maneira equilibrada, saudável e feliz, conseguindo externar sua melhor capacidade produtiva, mostrando seu potencial genético."
Tratamento: T1
Hora / Homem: 45,75
Preço do Medicamento (R$): 198,08
Custo do medicamento por vaca (R$): 18,00
Tratamento: T2
Hora / Homem: 12,00
Preço do Medicamento (R$): 737,72
Custo do medicamento por vaca (R$): 43,40
Tabela 1. Cálculo de custo dos tratamentos: T1 - Homeopatia, Bioterápicos e Fitoterapia; T2 - Testemunha (Alopatia).










