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11 de novembro de 2008

A Percepção Pública da Informação sobre os Potenciais Riscos dos Transgênicos na Cadeia Alimentar

produção
Ariadne Chloë Furnival

No atual contexto da introdução dos transgênicos na cadeia alimentar brasileira, apresentamos os resultados de estudo que empregou o método qualitativo de grupos focais para levantar as interpretações do público em relação à informação disponível sobre essa inovação biotecnológica. A utilização desse método permitiu gerar resultados que revelaram as relações construídas pelos participantes da pesquisa entre essa modalidade da biotecnologia, as mudanças no meio ambiente e a produção de alimentos em geral. Os resultados apontam particularmente para o modo como os participantes identificaram a falta de informação compreensível, tanto na mídia de massa quanto nos rótulos de produtos, como principal fonte dos seus sentimentos de desconfiança em relação aos transgênicos.

As controvérsias surgidas no final do século XX em torno dos organismos geneticamente modificados (OGMs) - os chamados transgênicos - podem ser entendidas como significativo divisor de águas que inaugurou o despertar de interesse maior da sociedade em relação aos processos de inovação tecnológica na área de biotecnologia. Em certos casos, a credibilidade pública de algumas empresas multinacionais atuantes na área foi colocada em questão: por exemplo, frente à resistência do mercado europeu a seus cereais transgênicos, a Monsanto foi obrigada a implementar mudanças radicais nas estratégias de negócios (Barboza, 31 May 2003; Monsanto fails..., s.d.).

Testemunhamos resistência semelhante por parte do público em geral no Brasil: Massarani (2000) relata que em 2000 o Jornal do Brasil (11 jul. 2000, primeira página) realizou enquete perguntando "Você é a favor da liberação de alimentos transgênicos?" e obteve os seguintes resultados: contra, 69%; a favor, 23%; não se definiram, 8%. Em 2003, o Ibope publicou resultados de sua pesquisa de opinião pública sobre o assunto mostrando que, dos dois mil brasileiros entrevistados, apenas 37% já tinham ouvido falar dos OGMs; 71% destes disseram que, se pudessem escolher, prefeririam consumir alimentos que não os contivessem (Ibope, 2003). 

Essas estatísticas são indicadoras de que, embora ainda haja pouco conhecimento sobre os OGMs no Brasil, manifesta-se a vontade de ser informado sobre a presença desses componentes nos alimentos antes de sua compra. No entanto, é questionável a competência das técnicas de enquete com perguntas fechadas, na captação das referências ambivalentes e complexas do público em geral, para pensar sobre e reagir a assuntos como esse. 

Identificamos escassez de pesquisas qualitativas no Brasil na área que trata da compreensão do público a respeito das informações sobre novas tecnologias, como os OGMs, um dos fatores, aliás, que nos incentivaram a realizar nosso estudo numa cidade do interior do estado de São Paulo. A pesquisa focou as percepções de alguns grupos dessa cidade com relação ao contexto da introdução dos transgênicos na cadeia alimentar no Brasil. Nossos objetivos específicos foram: identificar como o público se sente em relação aos OGMs e examinar o que pensa das informações divulgadas na mídia sobre o assunto, explorando suas interpretações pessoais, expressas em conversas do dia-a-dia.

A pesquisa resultou em levantamento de dados via a realização de oito grupos focais (GFs), visando revelar em que sentido a compreensão da informação divulgada sobre os OGMs suscita sua aceitação ou rejeição. 

Como em outros países (Massarani, 2000), ainda está em curso a polêmica em torno da incorporação dos transgênicos à cadeia alimentar no Brasil. Como nota Oliveira (2004, p.15), "os debates sobre transgênicos ganham contornos altamente polarizados, inviabilizando a possibilidade de se alcançar um consenso sobre as eventuais vantagens da adoção desta tecnologia para os cidadãos".

A controvérsia tem-se agravado ainda mais com a mudança de posição por parte do governo brasileiro (Marinho, Minayo-Gomez, 2004), que, apesar de apoiar retoricamente o Princípio da Precaução1, liberou, a partir de março de 2005, a comercialização da soja transgênica no Brasil, cujos efeitos sobre a saúde humana e o meio ambiente, entretanto, ainda não estavam plenamente mensurados e reconhecidos pela comunidade científica (Lewgoy, 2000). Assim, o comportamento do atual governo consolida o plano iniciado no anterior, em vez de adotar postura de precaução.2 

O plantio de soja transgênica no Brasil, liberado desde 2003, coloca o produto na cadeia alimentar. Assim, uma questão central diz respeito ao direito de o consumidor ter acesso a essa informação no rótulo do alimento que consome, o que, entretanto, fez com que o debate público em torno da liberação dos OGMs nos alimentos se restringisse à rotulagem ou não dos produtos e de que forma seria implementada, de modo que possibilitasse a rastreabilidade dos componentes do produto. Isso representa a principal - senão a única - frente de 'envolvimento' do público nessa polêmica na sociedade brasileira. 

Partes desse debate ou de sua falta serão retomadas adiante, na apresentação dos resultados de nosso estudo. Antes, porém, delineamos, nas seções que seguem aspectos da nossa pesquisa, começando com a metodologia. 


O método 

Enquadrando-se na grande categoria de pesquisa qualitativa exploratória, o método dos grupos focais (GFs) é indicado para conhecer a realidade cotidiana tal como explicada pelas pessoas que a vivem, permitindo aos pesquisadores e participantes explorar juntos o contexto relacional e imbricado (embeddedness) de seus valores e atitudes (Burgess, Limb, Harrison, 1988a, 1988b).

A realização de GFs visa fomentar a interação em grupo com o mínimo possível de envolvimento do pesquisador, que assume o papel de moderador do GF. É essa interação que gera os dados de pesquisa, como notam Barbour e Kitzinger (1999, p. 4; tradução livre): "Em vez de fazer perguntas a cada participante individualmente, os pesquisadores que usam os GFs encorajam os participantes a falar/conversar entre si, fazendo perguntas, trocando informações, comentando as experiências de cada um. No mínimo, os participantes criam uma audiência comum." 

A comparação com enquetes e pesquisas de opinião pública, embasadas em questionários constituídos por perguntas fechadas, é útil para apreciar a relevância da interação entre os participantes no GF. Proponentes desse método observam que as pesquisas usando questionários daquele tipo partem do pressuposto de que 'atitudes' e 'opiniões' - e mesmo os termos usados na formulação das perguntas - configuram atributos objetivos cujos significados básicos são estáveis e aceitos universalmente (Grove-White et al., 1997; Waterton, Wynne, 1999) e como tal são passíveis de 'medição'.

No entanto, nos GFs as opiniões e atitudes não são de indivíduos per se, mas sim de indivíduos inseridos em realidades multidimensionais, constituídas por redes socioculturais e comunitárias de amigos, colegas, profissionais, parentes, e portanto suas atitudes e opiniões relacionam-se com esses aspectosculturais (Potter, Wetherell, 1987; Wynne, 1991a, 1991b; Wynne, 1995; Yearley, 1999). 

Existem diversas recomendações na literatura quanto ao número ideal de grupos num dado estudo: a quantidade de GFs pode variar em relação ao escopo da pesquisa e aos recursos, mas sugere-se realizar minimamente de três a quatro GFs, sendo improvável que novos insights possam surgir com mais de sete ou oito grupos (Morgan, 1997; Krueger, 1994).

Quanto ao número de participantes em cada GF, a literatura indica que pode variar de três a 12 pessoas (Barbour, Kitzinger, 1999; Morgan, 1997). Krueger (1994, p.78) nota que "o tamanho ideal para um GF é de seis a nove participantes". Enfatiza-se, contudo, que o importante é a interação fomentada no GF e não necessariamente o número de participantes. 

Os oito GFs realizados em nossa pesquisa foram constituídos do seguinte modo: 

1 GF Terceira Idade - misto; cinco participantes da Universidade da Terceira Idade do município. 

2 GF Crochê - feminino; sete participantes; realizado num posto de saúde municipal, composto pelas alunas de crochê do local. 

3 GF Patrulheiros3 - misto; sete participantes; realizado em sala de aula de uma das universidades públicas da cidade. 

4 GF Engenharia Física - masculino; cinco participantes; realizado na biblioteca da mesma universidade pública, com estudantes do curso de bacharelado em engenharia física. 

5 GF Restaurante Universitário - misto; oito participantes; realizado no pátio do restaurante universitário com os funcionários de uma cooperativa de limpeza. 

6 GF Globo Aves - masculino; cinco participantes; realizado com trabalhadores dessa empresa de avicultura, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais. 

7 GF Coleta Seletiva - misto; seis participantes; realizado no galpão municipal de coleta seletiva, com os catadores da Cooperativa de Coleta Seletiva. 

8 GF Escola Técnica - misto; seis participantes; realizado no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, com os estudantes da Escola Técnica de Agropecuária.

Com exceção do primeiro e do último GFs, o nível de formação dos participantes era, no máximo, segundo grau completo. 

Essa pesquisa seguiu algumas diretrizes daquela realizada no Reino Unido sobre a compreensão pública dos transgênicos, descrita no relatório "Uncertain world" (Grove-White et al., 1997). Nosso roteiro, planejado para que cada GF durasse no máximo hora e meia, procurou levantar desde as opiniões dos participantes sobre os alimentos em geral nos últimos dez anos, até seus conhecimentos e opiniões específicos sobre os transgênicos. 

Para estimular a conversa, foi usado um quadro de conceitos (concept board) contendo fotos, desenhos e charges retiradas da mídia nacional da época, bem como mostrada uma lista de produtos, já à venda nos supermercados brasileiros, que alegadamente contêm componentes transgênicos.4 As discussões foram gravadas5, e a massa de dados textuais gerada na forma das transcrições constituiu o material básico para a análise.


A análise dos dados 

Ressaltamos que nossa posição epistemológica é construtivista, ou seja, baseia-se na idéia de que o conhecimento humano é socialmente construído. Os construtivistas não postulam a existência de realidade única, mas sim de múltiplas realidades construídas por seres humanos, que podem ser compartilhadas por grupos inseridos em certos contextos culturais.

A compreensão brota da experiência que, por seu turno, é profundamente influenciada pela interpretação que os indivíduos fazem dos eventos. Isso se aplica, evidentemente, tanto aos participantes da pesquisa quanto ao pesquisador. O conhecimento, portanto, surge - é criado - a partir de trocas pessoais entre seres humanos ou entre seres humanos e objetos, em vez de ser descoberto, como se estivesse 'lá fora', objetivamente, 'esperando' (Guba, Lincoln, 1989; Lincoln, 1990; Woolgar, 1996). Acreditamos, assim, que foram os dados gerados pelos participantes dos GFs que 'nos levaram' aos temas aprofundados neste estudo. 


Resultados e discussão 

A análise aqui apresentada, embora adequada ao espaço de um artigo, é representativa do relatório final dessa etapa da pesquisa. Do material dos oito GFs aqui considerados, recortamos as seguintes categorias analíticas para discussão: 

- os alimentos e o meio ambiente; 

- a percepção de riscos nos transgênicos; 

- informações sobre os OGMs. 

Os alimentos e o meio ambiente 

Embora não se explicitasse como um dos objetivos da pesquisa levantar percepções relacionadas ao meio ambiente, o assunto fez-se notavelmente presente quando se tratava das mudanças nos alimentos nos últimos anos. Constatamos que a maioria dos participantes ressaltou aspectos negativos dos alimentos modernos, principalmente no que diz respeito a percebido uso exagerado de agrotóxicos e outros aditivos químicos, como ilustra este depoimento: "Há dez anos, os alimentos não eram assim cheio daqueles conservantes que colocam nos alimentos. Isso aí é uma coisa que eu acho que não faz bem para a saúde. Não sei não. Não tenho muita opinião para dar, mas sei que mudou barbaridade" (Grupo Crochê). 

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