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14 de outubro de 2011

As Relações entre Qualidade de Vida e Agricultura Familiar Orgânica - da articulação de conceitos a um estudo exploratório

nutrição
NO on on on on o nono onon ono nono nono nono
HO oh oh ohoho hoho hohoh oho hoho hoho hohoh ohoh oho
 
Elaine de Azevedo

Os conceitos de qualidade de vida, agricultura orgânica e agricultura familiar têm sido recorrentemente estudados sem que exista, entre eles, uma articulação conceitual sistematizada. 

Este trabalho objetiva fazer o entrelaçamento entre qualidade de vida e Agricultura Familiar Orgânica, partindo da premissa de que os aspectos subjetivos e objetivos presentes nas discussões sobre qualidade de vida também aparecem nos estudos sobre a Agricultura Familiar Orgânica. A noção de qualidade de vida, ainda em construção, é extremamente complexa e rica em dimensões subjetivas, compreendidas dentro de uma percepção ampla e multicultural. Analisando o meio rural a partir da agricultura, percebe-se que o padrão produtivo determina mudanças significativas na saúde social e ambiental e na qualidade de vida dos agricultores. Este trabalho ressalta as diferentes repercussões sócio-ambientais, culturais e sobre a saúde humana do Padrão Técnico Moderno de produção de alimentos e da Agricultura Orgânica. Essa última, ao se apresentar como um sistema produtivo que objetiva a auto-sustentação da propriedade agrícola, a oferta de alimentos saudáveis e a preservação da saúde ambiental e humana, questiona as repercussões negativas do Padrão Técnico Moderno e se aproxima da noção de qualidade de vida. O trabalho enfatiza a racionalidade da Agricultura Familiar como propícia para o desenvolvimento da Agricultura Orgânica por priorizar a maximização dos benefícios sociais para o agricultor e o respeito à sua integridade cultural. Para ilustrar a articulação entre qualidade de vida e Agricultura Familiar Orgânica, buscou-se conhecer as repercussões da adoção de um sistema de produção orgânico sobre a qualidade de vida de agricultores familiares. A investigação, baseada em um procedimento de estudo exploratório, apoiou a articulação construída teoricamente, mostrou sua pertinência e permitiu delimitar, com maior segurança, a questão central do trabalho. 

O instrumento metodológico de pesquisa sobre qualidade de vida da Organização Mundial da Saúde, o WHOQOL, direcionou o estudo de campo com os agricultores familiares orgânicos da AGRECO em Santa Rosa de Lima. O estudo de caso ajudou a elucidar a complexidade das relações que permeiam o contexto de pesquisa sobre qualidade de vida no meio rural ao mesmo tempo em que evidenciou a prática da Agricultura Familiar Orgânica como uma estratégia eficaz na promoção de qualidade de vida e de valores sociais nesse meio. 


A discussão sobre produção orgânica de alimentos e promoção de saúde humana interessa à autora deste trabalho desde 1988 quando, após sua formação em Nutrição pela Universidade Federal do Paraná, fez uma especialização em Medicina Antroposófica na Sociedade Brasileira de Medicina Antroposófica (SBMA) em São Paulo. Nessa pós-graduação, grande ênfase foi dada à qualidade dos alimentos biodinâmicos1 e sua relação com a promoção de saúde. Após essa formação, surgiu a oportunidade de estagiar em clínicas de Medicina Antroposófica na Áustria, Alemanha e Suíça. Nesses países foi possível conhecer várias propriedades rurais biodinâmicas e o movimento europeu de produção orgânica. 

Em 1991, de volta ao Brasil, a autora iniciou sua atuação profissional em área clínica, educação nutricional e docência, num contato próximo com pacientes, consumidores orgânicos e estudantes da área da saúde. Sua área de especial interesse é a da qualidade alimentar dos produtos orgânicos e sua relação com a saúde humana. 

A opção pelo programa de mestrado em Agroecossistemas da Universidade Federal de Santa Catarina, iniciado em 2002, foi uma maneira de conhecer melhor a produção de alimentos de qualidade e as relações sociais que estão por trás dessa produção. Também se buscou aproximar o enfoque central da Nutrição, "como se alimentar", com o enfoque da Agronomia, "como produzir". Liebig (1803-1873) em sua obra publicada em 1840, "A Química Orgânica e sua aplicação na Agricultura e Fisiologia", apresentou os princípios diretores para o desenvolvimento da Nutrição e da Agronomia. Entretanto, a abordagem reducionista do ensino moderno contribuiu para que essas duas áreas se especializassem em ciências distintas. Assim, o sistema agroalimentar tem sido estudado dentro de áreas científicas específicas em que a perspectiva da distribuição e do consumo de alimentos é considerada um elemento externo ao processo produtivo. Nesse enfoque, a Agronomia cuida essencialmente da produção alimentar da "porteira para trás". É uma abordagem distante do ponto de vista de Steiner (2000, p.28), para quem "em qualquer direção, em qualquer canto, todos os interesses e campos da vida humana participam intimamente da agricultura". Por sua vez, a Nutrição se preocupa principalmente com a saúde humana e a qualidade alimentar. O conceito de qualidade vigente repousa fundamentalmente no valor nutritivo dos alimentos dentro do enfoque calórico-quantitativo de nutrientes, sem considerar o padrão produtivo e a origem dos alimentos. Contudo, o padrão produtivo estudado dentro da Agronomia se relaciona com a Nutrição, uma vez que está intimamente ligado à repercussões sócio-ambientais e mudanças na qualidade do alimento, do ar e da água que, por sua vez, influenciam a saúde humana. 

Todas essas questões interessam à autora desse trabalho, que também busca conhecer quem produz os alimentos, atentando para seu estilo de vida e saúde. Questionar quem produz os alimentos leva inevitavelmente ao agricultor, que está na base do processo produtivo. 

A proposta inicial foi estudar a qualidade de vida do agricultor familiar orgânico, responsável por grande parte da produção de alimentos de origem orgânica, com base em um processo produtivo diferenciado. Esse agricultor é motivado a manter seu ambiente saudável, e assim desenvolve técnicas de manejo que enfocam o bem-estar animal e a saúde do reino vegetal. 

A partir da necessidade de discutir essas práticas e também formas de comercialização que melhorem sua renda, o agricultor familiar orgânico é sensibilizado a se agrupar em associações. 

No princípio, o que motivou esse estudo foi conhecer o quanto essas mudanças afetam a qualidade de vida do agricultor familiar orgânico e o que ele entende por qualidade de vida. 

A pesquisa sobre qualidade de vida aparece recorrentemente vinculada a indicadores objetivos que se referem à situação econômica e ao acesso a serviços de saúde, transporte e educação, especialmente no meio urbano. Alguns autores, como Bullinger et al (1993), consideram que existe uma abordagem universal de qualidade de vida comum a todos os seres humanos (BULLINGER et al, 1993 apud FLECK, 1998). Porém, outra abordagem de discussão sobre qualidade de vida, que interessa particularmente a este trabalho, amplia a noção e propõe que ela seja avaliada dentro de cada cultura específica, além de considerar sua subjetividade para povos e indivíduos determinados. A natureza subjetiva da qualidade de vida se relaciona a "como as pessoas sentem ou o que pensam das suas vidas, ou como percebem o valor dos componentes materiais reconhecidos como base social da qualidade de vida" (MINAYO; HARTZ; BUSS, 2000, pp 11-12). Entretanto, essa natureza subjetiva não se encontra suficientemente explorada na literatura, de tal modo que possibilite embasar uma pesquisa sobre a qualidade de vida de agricultores familiares orgânicos no meio rural. 

Buscou-se, então, embasamento teórico nos estudos sobre Agricultura Orgânica e agricultura familiar, partindo da premissa de que os aspectos subjetivos e objetivos que aparecem nas discussões sobre qualidade de vida também estão presentes nos estudos sobre a Agricultura Familiar Orgânica, que consideram a qualidade de vida como um elemento importante para se discutir desenvolvimento sustentável no meio rural. A partir desses estudos, o trabalho foi tomando outros rumos. O foco inicial em qualidade de vida do agricultor familiar orgânico foi deslocado para o estudo da relação entre os conceitos de qualidade de vida, Agricultura Orgânica e Agricultura Familiar. 

Considerando que a autora teve uma formação na área da saúde, a base teórica para estudar qualidade de vida foi um conceito ampliado de saúde. Esse conceito é também a base da proposta metodológica de um estudo de qualidade de vida desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde - OMS (WHOQOL GROUP, 1994). A metodologia, já experimentada anteriormente pela OMS para pesquisar qualidade de vida de populações urbanas, foi, neste trabalho, adequada ao espaço rural. A partir do estudo da OMS, relacionar os conceitos ampliados de saúde e qualidade de vida à Agricultura Familiar Orgânica tornou-se um dos eixos centrais do trabalho. 

Os temas saúde e qualidade de vida aparecem recorrentemente relacionados. O desafio foi relacionar esses conceitos à Agricultura Orgânica e, mais especificamente à Agricultura Familiar Orgânica (AFO). Nos estudos da AFO discutem-se questões que permeiam o tema da qualidade de vida nas mais variadas dimensões: sociais, ambientais, culturais e de saúde humana. 

Entretanto esses estudos ainda não estabelecem uma relação explícita entre Agricultura Familiar Orgânica e qualidade de vida. Sumariamente, objetivou-se neste trabalho relacionar conceitos afins que aparecem de forma desarticulada na literatura. 

Optou-se por estudar a agricultura familiar porque ela responde, em grande parte, à questão já mencionada: quem produz os alimentos? Além disso, ela tem se mostrado expressiva para o conjunto de estratégias voltadas ao desenvolvimento rural e a qualidade de vida no campo. 

Pensar sobre qualidade de vida e Agricultura Familiar Orgânica implica no estreitamento das relações no mundo rural e na percepção da importância de se construir, nesse meio, uma realidade que não se restrinja à atividades produtivas. Trata-se de um universo peculiar, designado, por alguns autores, como ruralidade2. 

A partir de um trabalho de investigação a campo, buscou-se conhecer as repercussões da adoção de um sistema de produção orgânico sobre a qualidade de vida de agricultores familiares. A investigação, baseada em um procedimento de estudo exploratório, apoiou a articulação construída teoricamente - a relação entre qualidade de vida e Agricultura Familiar Orgânica - e mostrou sua pertinência. O estudo exploratório se caracteriza como uma ilustração da reflexão teórica que delimita, com maior segurança, a questão central do trabalho. O fato de a investigação estar embasada essencialmente no agricultor familiar permitiu que se trabalhasse com conceitos subjetivos configurados como parâmetros de qualidade de vida, uma vez que no âmbito da agricultura familiar, as razões utilitárias e simbólicas se entrelaçam e o projeto de vida do agricultor familiar não se limita à dimensão da racionalidade econômica e da produtividade na agricultura. A avaliação da dinâmica das relações familiares e sociais dos agricultores analisadas sob a ótica da qualidade de vida ampliou a relação proposta nesse trabalho. O estudo exploratório não permitiu generalizações, mas ajudou a repensar os conceitos e a relação proposta, a conhecer novas variáveis do contexto rural de qualidade de vida e a estabelecer pistas para pesquisas futuras. 

A investigação foi feita entre os agricultores familiares orgânicos da Associação de Agricultores Ecológicos da Encosta da Serra Geral (AGRECO)3 com especial interesse para o que se configura para eles, no meio rural, qualidade de vida. A escolha da AGRECO não foi aleatória, uma vez que tal associação expressa em seu estatuto o desejo de contribuir para a melhoria da qualidade de vida de seus associados, agricultores familiares, e de incorporar ao sistema de produção orgânico o resgate de um "modo de vida orgânico". 

O presente trabalho foi estruturado em dois capítulos: 

No primeiro capítulo constrói-se a relação entre qualidade de vida e Agricultura Familiar Orgânica. Para compreender tal articulação é importante, inicialmente, precisar a noção de qualidade de vida. Para isso, parte-se dos conceitos históricos de saúde e a mudança de enfoque nesses conceitos ocorridas a partir do século XVIII. Essa mudança levou à necessidade de se repensar a saúde de forma interdisciplinar e global e aproximou seu conceito ao de qualidade de vida. A noção de qualidade de vida é explorada também a partir de outros aspectos que ampliam a sua dimensão. Aspectos sócio-ambientais e culturais são analisados por se considerar que eles estão também presentes nas discussões sobre a Agricultura Familiar Orgânica. A abordagem da relação entre qualidade de vida e agricultura começa com a análise das mudanças que ocorreram no sistema agroalimentar com base no Padrão Técnico Moderno (PTM)4 de produção chegando até os dias atuais, com o resgate da Agricultura Orgânica. Apresentam-se as mudanças que ocorreram nos planos ambiental, social e cultural e suas repercussões sobre a qualidade de vida no meio rural, percebidas igualmente no meio urbano. 

Ainda no primeiro capítulo, o trabalho volta-se para a Agricultura Orgânica (AO) relacionando-a com a promoção da qualidade de vida, cuja noção foi explorada anteriormente. Na dimensão ambiental apresenta-se a preocupação da AO em manter a diversidade biológica e o meio ambiente saudável, ação que repercute positivamente na saúde de quem vive nesse ambiente. Posteriormente explora-se uma abordagem sobre a qualidade dos alimentos que contribui com a discussão na medida em que a Agricultura Orgânica provê alimentos com valor nutricional equilibrado e isentos de contaminantes químicos cujo consumo se relaciona com a promoção da saúde humana. 

No contexto sócio-cultural da Agricultura Orgânica insere-se a agricultura familiar. Ao apresentar os aspectos sócio-culturais que permeiam as discussões da Agricultura Orgânica e qualidade de vida introduz-se a agricultura familiar como lócus ideal da AO e como estratégia de construção de novas ruralidades (DO CARMO, 1998; KARAM, 2001). A AFO preocupa-se com o resgate cultural na medida em que valoriza o saber agrícola tradicional do agricultor familiar (MULLER, 2001). À luz da AFO aparece uma oportunidade para se discutir inclusão social e desenvolvimento rural sustentável, aspectos que também permeiam as discussões de qualidade de

vida. Assim como Gomez (1997), considera-se neste trabalho que a agricultura familiar acumula historicamente as condições de realizar a passagem para um modelo mais sustentável de agricultura, que repercute diretamente sobre a qualidade de vida no meio rural e também urbano. 

Ao articular conceitualmente a noção de qualidade de vida com a AFO, o estudo ressalta relações que foram gradualmente construídas. A primeira relação aponta o conceito ampliado de saúde direcionado para a noção de qualidade de vida. Percebeu-se, também, que essa noção se constrói com base em indicadores sócio-econômicos mensuráveis e a partir de dimensões ambientais, sociais e culturais objetivas e subjetivas. Posteriormente relaciona-se o padrão produtivo adotado e sua influência sobre a qualidade de vida no meio rural e apresenta-se a Agricultura Familiar Orgânica como instrumento de promoção de qualidade de vida em contraposição ao Padrão Técnico Moderno de produção de alimentos. Por fim, sob a ótica da AFO, o meio rural se configura hoje em um espaço propício para a promoção da qualidade de vida no que diz respeito à preservação do meio ambiente, à valorização da cultura local e à promoção de relações sociais mais saudáveis.

Para ampliar essa discussão apresenta-se no segundo capítulo a pesquisa exploratória que ilustra a articulação entre qualidade de vida e Agricultura Familiar Orgânica. O objetivo central da pesquisa de campo foi o de perceber as mudanças que ocorreram na qualidade de vida dos agricultores familiares orgânicos e, dessa forma, ilustrar a relação construída no primeiro capítulo. 

Para tal fim, apresenta-se a metodologia e o instrumento desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde (OMS)5 para avaliar qualidade de vida que embasou o estudo ilustrativo desenvolvido com os agricultores da AGRECO. A seguir discutem-se os critérios de escolha dos agricultores, os procedimentos e o instrumento da pesquisa. 

Considerando-se o enfoque sócio-ambiental e cultural como determinante da qualidade de vida de uma população, fez-se necessário apresentar a região pesquisada, o processo de transição agrícola ali ocorrido, a associação à qual os agricultores pesquisados estão vinculados, além de 

uma caracterização desses agricultores para conhecer dados objetivos de qualidade de vida condições de moradia, renda, dados das unidades de produção, etc). Estudos sobre a colonização alemã no sul do Brasil ajudaram a elucidar a influência da cultura e da racionalidade dos colonos alemães sobre o modo de viver e a qualidade de vida dos agricultores familiares pesquisados (SEYFERTH, 1974; ROCHE, 1969). Os temas desenvolvidos no primeiro capítulo foram relacionados com a realidade local dos agricultores estudados. Os aspectos sócioambientais, culturais e de saúde humana relacionados à Agricultura Familiar Orgânica foram a base para a análise da qualidade de vida desses agricultores. 

Além da obtenção de dados objetivos que caracterizaram os agricultores pesquisados, o trabalho de campo permitiu observar que os agricultores percebiam "domínios de qualidade de vida" que incluíam facetas imediatamente relacionadas ao tema. São exemplos as condições de saúde, a dependência de medicamentos, a qualidade do sono, o acesso a serviços de saúde, educação e transporte, os recursos financeiros e as formas de lazer. Outras facetas, de caráter subjetivo, observadas pela pesquisadora não foram, de imediato, relacionadas pelos agricultores como aspectos de qualidade de vida. Porém, nesse estudo, elas foram percebidas como importantes para a discussão de qualidade de vida do agricultor familiar orgânico no meio rural. Algumas facetas podem ser citados, como o contexto de segurança afetiva com base em relações sociais e familiares sólidas e estáveis, a vinculação a um trabalho mais prazeroso e reconhecido socialmente e, por fim, a capacidade de expressar aspirações, melhorando a condição de auto-estima. 

A ilustração, a partir do caso dos agricultores familiares orgânicos ligados à AGRECO, ajudou a elucidar a complexidade das relações que permeiam o contexto de pesquisa sobre qualidade de vida no meio rural ao mesmo tempo em que evidenciou a prática da Agricultura Familiar Orgânica como uma estratégia eficaz na promoção de qualidade de vida e de valores sociais nesse meio.

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