


A partir das considerações levantadas sobre a qualidade dos alimentos, pode-se relacionar a Agricultura Orgânica com a promoção da saúde humana. Essa relação se estabelece, primeiramente, a partir da oferta de alimentos com baixa toxicidade e melhor valor nutricional, que apresentam ação preventiva em doenças carenciais e crônico-degenerativas. Sob o enfoque ampliado de saúde, é possível também relacionar a Agricultura Orgânica ao contexto ambiental, que repercute diretamente em quem vive nesse ambiente e, também, ao contexto sócio-cultural da promoção de saúde e de qualidade de vida.
A forma de produção de alimentos dentro do Padrão Técnico Moderno tem sido responsável pela contaminação de lençóis freáticos, rios e oceanos, comprometendo a fertilidade do solo, destruindo a biodiversidade e fortificando a dependência de energia petroquímica e dos agroquímicos. Por outro lado, na Agricultura Orgânica, percebe-se o ambiente como um agroecossistema e seu modelo conceitual está centrado na qualidade das águas e do solo (este como um organismo vivo); na saúde da planta (que doente gera suas pragas que são, na verdade, indicadores do desequilíbrio do solo e da planta); no controle biológico dessas pragas (através da manutenção da biodiversidade da flora e da fauna local); na diversificação das propriedades (priorizando diversificação das culturas); na produção animal integrada ao sistema (preconizando o bem-estar e a prevenção das doenças do animal); no rendimento ótimo em lugar do rendimento máximo; e no controle do uso de fontes de energia não-renováveis no sistema produtivo (Kathounian, 2001). É importante ressaltar que, de alguma forma, a agropecuária convencional também busca um rendimento ótimo, porém voltado mais ao aspecto econômico.
A adoção de práticas orgânicas na produção de alimentos prevê conseqüências ambientais perceptíveis na qualidade dos alimentos; na fertilidade do solo; na qualidade de vida dos animais e seres humanos vivendo num ambiente isento de substâncias tóxicas, onde se mantenha a diversidade biológica da flora e da fauna, as águas mais limpas, o clima equilibrado e o ar menos poluído. O equilíbrio do ambiente fica, assim, irremediavelmente ligado ao conceito de saúde humana e a AO torna-se um instrumento essencial na promoção da saúde ambiental.
Os conceitos de ecologia e meio ambiente saudável não se sustentam sem a introdução do ser humano neste ambiente. O caminho aponta uma sociedade orientada por uma “razão ecossocial” como solução para a crise na agricultura e como alternativa ao desenvolvimento rural baseado no Padrão Técnico Moderno. A redução da necessidade de mão-de-obra agrícola resultante da modernização da grande propriedade expulsou o trabalhador rural do campo. A visão produtivista do Padrão Técnico Moderno de agricultura contribuiu para desqualificar o saber agrícola tradicional desse trabalhador e torna-se importante discutir o desenvolvimento rural a partir da avaliação das repercussões sócio-culturais desse padrão produtivo. Essas repercussões direcionam para o conceito de saúde social, que interessa particularmente ao contexto deste trabalho por sua relação com a qualidade de vida.
Discutir o potencial da Agricultura Orgânica de promover saúde social e resgate cultural exige uma reflexão sobre os vínculos entre ela e a Agricultura Familiar. Não se ignora que existe uma vastidão de tipos de Agricultura Familiar, porém aponta-se aqui uma parcela das unidades familiares marcadas por sua lógica voltada para a reprodução da família, que busca o desenvolvimento de sistemas diversificados de produção agrícola, a economia no consumo de energia proveniente de derivados do petróleo e a preservação da flora e fauna nativas, além de privilegiar a diversidade biológica e a maior densidade de áreas verdes. Acredita-se que é esse o perfil de parte da agricultura familiar brasileira.
A produção orgânica é adequada para os agricultores familiares que constituem a maioria dos pobres do mundo. Os agricultores orgânicos são menos dependentes dos recursos externos e obtêm colheitas mais altas e estáveis, e, portanto, maior renda.
Dentro dessa perspectiva, o meio rural tende a se configurar como um espaço de promoção de qualidade de vida para a sociedade rural e urbana. Porém, o rural só pode ganhar tal dimensão se o sistema produtivo adotado tiver a mesma percepção dessa noção. Um sistema produtivo que promova qualidade de vida deve ter como prioridade a preocupação de preservar o meio ambiente, de dignificar socialmente o agricultor, de valorizar a cultura local e o saber tradicional e de produzir alimentos saudáveis. Todos esses aspectos se inter-relacionam na discussão sobre qualidade de vida. É aqui que a Agricultura Familiar Orgânica se insere, compreendida como alternativa produtiva, como movimento social e como estratégia de desenvolvimento rural e urbano onde se vive com melhor qualidade.
A natureza preservada repercute positivamente também na qualidade de vida do meio urbano. O citadino também pode se beneficiar dessa forma de produção na medida que é provido de alimentos mais saudáveis e de água de melhor qualidade. Acredita-se que um processo de revitalização e reorganização social do meio rural pode repercutir em melhor qualidade de vida no meio urbano, em cidades mais equilibradas em seu número de habitantes, em menores índices de desempregos e menos violência.
































